Eles Nunca Foram Embora: A Volta Triunfante dos Personagens Sanrio que Marcaram a Infância dos Anos 90 e 2000 no Brasil
Tem uma palavra em português que não tem tradução perfeita em nenhuma outra língua: saudade. E se existe uma saudade específica que une gerações de brasileiros que cresceram nos anos 90 e 2000, é a saudade kawaii — aquela sensação quentinha de ver um Keroppi estampado num estojo ou segurar uma pelúcia de Badtz-Maru que cheirava a plástico novo de papelaria.
Esses personagens ficaram anos em segundo plano, ofuscados pelo brilho eterno de Hello Kitty e pela ascensão de novos queridinhos como Cinnamoroll e Kuromi. Mas algo mudou. Eles estão de volta — e desta vez, com uma força que ninguém esperava.
A Geração que Nunca Esqueceu
Para entender esse fenômeno, é preciso voltar um pouco no tempo. Nos anos 90, a Sanrio chegou ao Brasil com uma força impressionante. Papelarias de shopping, lojas de presentes e até bancas de jornal vendiam produtos com personagens que hoje parecem quase esquecidos: o pinguim rebelde Badtz-Maru, o sapo simpático Keroppi, o cachorrinho atlético Pochacco, o hamster gordinho Hamtaro (tecnicamente não Sanrio, mas parte do mesmo universo afetivo), a coelhinha Chibimaru e tantos outros.
Essas crianças dos anos 90 cresceram. Viraram adultos com saudade. E agora, com poder de compra e acesso a plataformas digitais, estão fazendo algo muito bonito: resgatando o que amavam.
O Papel do TikTok nessa Redescoberta
Se tem uma plataforma que turbinou o resgate dos personagens Sanrio vintage, foi o TikTok. O algoritmo da rede tem um talento peculiar para criar ondas nostálgicas — e a comunidade kawaii soube usar isso muito bem.
Vídeos com o formato "você se lembra desse personagem?" acumulam centenas de milhares de visualizações quando envolvem personagens Sanrio menos conhecidos. Uma criadora brasileira de conteúdo postou um vídeo mostrando sua coleção de itens de Badtz-Maru dos anos 90 e recebeu mais de 300 mil visualizações e milhares de comentários de pessoas que simplesmente não sabiam que sentiam tanta falta do personagem.
O TikTok também funciona como uma máquina de reintrodução: jovens de 18, 19 anos que não viveram os anos 90 estão conhecendo Keroppi e Pochacco pela primeira vez — e se apaixonando. Para eles, não é nostalgia. É descoberta. E isso é igualmente poderoso.
Badtz-Maru: O Rebelde que Voltou com Tudo
De todos os personagens que estão vivendo um renascimento, Badtz-Maru talvez seja o caso mais fascinante. O pinguim de sobrancelhas grossas e expressão de tédio — que nunca combinou muito com a estética ultra-fofa dos outros personagens Sanrio — encontrou um público completamente novo.
Sua atitude "não me perturbe" ressoa muito com a Geração Z, que valoriza a autenticidade e a rejeição das expectativas sociais. Não é coincidência que Badtz-Maru tenha aparecido em colaborações com marcas de streetwear e em merch de bandas de rock alternativo nos últimos anos. Ele sempre foi o outsider do universo Sanrio — e agora isso é exatamente o que o torna cool.
Na comunidade brasileira, fãs de longa data do personagem relatam uma mistura de orgulho e diversão ao ver o pinguim finalmente receber o reconhecimento que sempre mereceu. "Eu tinha poster do Badtz-Maru no quarto em 1998 e as pessoas achavam esquisito", conta uma colecionadora de São Paulo em um grupo de kawaii no Facebook. "Agora todo mundo quer."
Keroppi e a Doçura que Nunca Envelhece
Já Keroppi representa algo diferente: a nostalgia pura e simples, sem ironia. O sapo verde de olhos grandes e sorriso permanente foi um dos personagens mais populares da Sanrio no Brasil durante os anos 90, aparecendo em tudo — de cadernos escolares a pelúcias de brinquedoteca.
Seu retorno é movido principalmente por millennials que o associam a memórias específicas e carregadas de afeto: a papelaria perto da escola, o presente de aniversário da melhor amiga, as figurinhas trocadas no recreio. Keroppi não é cool da mesma forma que Badtz-Maru — ele é aconchegante. E em tempos difíceis, aconchegante tem muito valor.
A Sanrio percebeu esse movimento e começou a relançar produtos com Keroppi em edições especiais, inclusive colaborando com marcas de moda japonesas. No Brasil, esses lançamentos são acompanhados de perto pela comunidade kawaii e esgotam rapidamente nas lojas especializadas.
Pochacco, Tuxedosam e os Outros: Os Esquecidos que Merecem Atenção
Além dos dois grandes, outros personagens estão ganhando visibilidade nas comunidades kawaii brasileiras. Pochacco, o cachorrinho branco atlético, tem uma base de fãs fiel que nunca o abandonou — e que está crescendo. Tuxedosam, o pinguim elegante, encontrou novos admiradores entre fãs de estética vintage e retrô.
Esses personagens têm algo em comum: foram muito populares em seus momentos de lançamento, mas ficaram anos sem produtos novos ou campanhas de marketing expressivas. Isso, paradoxalmente, aumentou seu apelo colecionável. Itens antigos desses personagens são mais raros — e portanto mais desejados.
Como a Comunidade Preserva Essa Memória
Um dos aspectos mais bonitos desse fenômeno é o trabalho de preservação que fãs brasileiros fazem de forma totalmente voluntária. Perfis no Instagram dedicados a registrar itens Sanrio vintage brasileiros, grupos no Telegram que compartilham catálogos antigos e até pequenos canais no YouTube que fazem "unboxing nostálgico" de itens dos anos 90 são exemplos dessa curadoria afetiva.
Essa comunidade tem uma característica muito particular: ela é geracional, mas não exclusiva. Adultos de 35 anos compartilham espaço com jovens de 20 que descobriram esses personagens recentemente. O amor pelo kawaii funciona como uma língua comum que atravessa diferenças de idade.
O Que Vem Por Aí
A Sanrio está prestando atenção nesse movimento. Relançamentos de personagens clássicos, coleções comemorativas e colaborações estratégicas são sinais de que a empresa entende o valor dessa nostalgia ativa. Para a comunidade brasileira, isso é uma boa notícia — significa mais produtos, mais visibilidade e mais oportunidades de celebrar personagens que sempre merecerem mais amor do que receberam.
Mas o mais importante já aconteceu: uma geração que cresceu com Badtz-Maru, Keroppi e Pochacco encontrou uma forma de manter viva essa parte da infância. Não por incapacidade de crescer, mas por sabedoria suficiente para reconhecer que algumas alegrias simples merecem durar para sempre.
E se você ainda tem aquela pelúcia de Keroppi guardada em algum lugar da casa: não joga fora. Ela pode valer mais do que você imagina — em reais e em memória.